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A POLÍTICA DO CONTEMPORÂNEO

 

     Quem já ouviu falar no artista  Han van Meegeren (1889-1947)? Pois aí está um exemplo de um grande talento que acabou debandando para outro ramo - o da falsificação - porque desenhava e pintava bem demais para fazer sucesso contra a correnteza da arte moderna. Ele foi o autor de obras primas atribuídas a Vermeer. Enganou grandes entendidos em arte da época. Enriqueceu e, para se livrar da acusação de contribuir com os nazistas, teve que confessar que sua fortuna se devia às falsificações. Para provar, foi obrigado a  pintar diante do tribunal um estupendo “Vermeer”, do contrário, suas obras ainda constariam nos catálogos do  mestre holandês e nas paredes dos museus. 

 

     Os conceitos da arte atual, aquela que se veste de oficialidade, custarão ainda a serem revistos, inobstante as inúmeras advertências que se lê e se ouve, vindas de grandes cabeças pensantes neste campo. Prevalece o culto da forma contemporânea, ou seja, o fazer artístico que cause estranhamento e que aparente inabilidade técnica. Isto cede lugar aos impostores e à triste constatação de que não se sabe quem merece prestígio entre os contemporâneos. Ao artista cabe fazer algo que se pareça com o que se vê nas grandes bienais e  esperar ser aceito um dia.  Enquanto isto, os grandes talentos têm que se reinventar para que sua técnica e, sobretudo, suas convicções  se imponham  onde o que vale é o “contemporaneísmo” e não a contemporaneidade. São poucos os que conseguem fazer este jogo político e alcançar o paraíso.

 

     Nas calçadas, o inglês Julian Beever se celebrizou com a sua chalk art, criando imagens de um realismo acadêmico impressionante. Imagens  no chão,  que vistas em determinado ângulo, tornam-se tridimensionais, onde as coisas e os transeuntes fazem parte da composição. O brasileiro Vik Muniz (o da abertura da novela Passione), consagrado mundialmente, é outro que tem uma forma inusitada, mesmo que não inédita,  de expressar o seu domínio técnico e talento ímpares.  

 

     Caminhará a Arte para uma verdadeira evolução, onde os seus cânones tradicionais serão suporte para magníficas novidades? Isso ninguém sabe, mas haverá os que desconcertarão sendo diferentes e instigantes,  apesar da técnica apurada. A política do  contemporâneo é o meio para a inclusão artística. Com ou sem técnica. Com ou sem talento. Fora isto, a desistência ou as fantásticas falsificações como as de Han van Meegeren.

 

                                                                                                                                                     Erico Santos

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