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EM BUSCA DE UM CRITÉRIO

 

      O texto que vocês lerão a seguir, foi escrito alguns dias antes do escritor australiano Peter Carey lançar no Brasil o romance "Roubo", onde é mais um intelectual a questionar as mentiras do mundo das artes e me certifiquei, mais uma vez, de que é necessário um "critério".
     Você já parou para pensar como se identifica uma boa arte moderna ou contemporânea? Todos somos exímios críticos da arte mais tradicional, figurativa e acadêmica. Expressamos instantaneamente nosso aguçado senso de estética ao analisar uma obra realista. Também a pintura impressionista, tão direta, tão objetiva e tão acessível ao transmitir poéticas emoções, todos reparam se resultou boa ou má. Até os mais neófitos em arte. Há um critério e todos o conhecem. Mesmo na arte moderna, figurativa ou abstrata, se identifica a boa e a má. Mas a arte nascida com o propósito "contemporâneo", quem de nós é capaz de dizer se é de bom ou de mau nível? Aquelas obras com aspecto moderno e bonitas, logo são tachadas de decorativas. Pejorativamente. Cuidado com a injustiça. Nem sempre são apenas decorativas. Algumas são verdadeiras obras de arte e sua beleza e poesia só a valorizam ainda mais. A não ser que seja uma obra medíocre. Pode ser até bonitinha, mas não passa. Mas há um tipo de arte inconteste... ah, esta entra num grupo de elite, festejada. Só porque não tem poesia, beleza, cor, forma... nada, mas tem a cara desta arte oficial. Mesmo assim, não é qualquer arte com este aspecto que entra para o rol das festejadas. Como auferir isso? Será que só os entendidos têm o poder de fazer esta distinção? Só os teóricos iluminados são os magos do ver e sentir uma boa obra contemporânea? Nem me refiro aos que nada sentem, nada entendem e elegem os rabiscos e borrões sem graça só para parecerem cultos e inteligentes, por dentro da onda... Há milhares de artistas bons, talentosos, competentes, formados, doutorados e pós-doutorados querendo fazer uma arte reconhecida como boa arte contemporânea, mas como? Onde está o critério, afinal? Como entrar para o seleto grupo dos incontestáveis?
     Imaginem um artista em seu atelier, todo lambuzado de tinta diante de uma tela, sofrendo e suando para tentar representar uma cena realista qualquer. Um toque aqui outro lá. Uns quatro passos para trás e... droga! Perspectiva errada, anatomia defeituosa, sem movimento, cores sujas... horrível! Esquentar a cuca por quê? Pega-se um pano, raspa-se aqui, risca-se ali, deforma-se lá, joga-se uma tinta por tudo, pega-se um pincel e se esgrima para lá e para cá, de olhos fechados, com a máxima violência possível e pronto: já que não deu para sair uma pintura figurativa, acadêmica, realista, surgiu uma obra "contemporânea". Assim, nascem muitos artistas desta vertente. É assim que, pelo menos, muitos artistas que se dizem contemporâneos enganaram e enganam neste mundão por aí a fora. Gente que sonha ser artista e não leva jeito pra coisa. Mas sua arte, ficou com cara de arte contemporânea. Isto é o que importa. As aparências enganam. Diante de uma boa arte acadêmica e uma má arte contemporânea, um jurado, num salão desta tendência, vai selecionar aquela que, pelo menos, assemelha-se à arte contemporânea. Sobra o artista e fica o enganador. Suprema injustiça! O artista rejeitado, vai para o seu atelier e começa a tentar dar um aspecto contemporâneo a sua pintura, para transitar nas festejadas rodas e desfrutar das benesses midiáticas que o seu colega contemporâneo goza. Não culparemos a mída. Pintar, simplesmente, é normal. Não culparemos também o Salão, pois o artista certinho estava totalmente deslocado, completamente fora da casinha. Noutra turma.
     Ocorre, porém, um fenômeno interessante: o artista que sempre teve o talento e a técnica, apesar de tudo fazer para adequar a sua arte ao padrão da contemporaneidade, não consegue chegar lá. Não entra para a roda respeitável dos salonáveis. Por que? Porque não sabe distinguir a boa da má arte contemporânea? Sabe sim, pois é um exímio artista, um virtuose técnico das cores e das formas. Mas não consegue distinguir o ingrediente que falta em sua arte para ter uma boa crítica estampada em alguma revista especializada ou em algum espaço da mídia. Nunca é convocado para algum salão, daqueles bonitos, grandões, estrondosos, espalhafatosos, multibilionários e oficiais, normalmente com dinheiro público, ou acalentados por poderosos mecenas, "sensibilizadíssimos" por tanta arte. Por que? Porque ninguém sabe o ingrediente que faltou. Ninguém conhece o critério. Nem os jurados ou curadores, nem o próprio crítico, nem os mecenas e nem os iluminados teóricos. Não havendo critério, vocês já podem imaginar a que artifícios os candidatos a artista têm que se submeter. Estes artifícios passam a ser o critério. Assim não dá. Isto não daria um bom tema para os teóricos pensarem? Para a maioria deles, é claro que não.

 

                                                                                                                                                         Erico Santos

 

 

     

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