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DESINFORMAÇÃO E INSENSIBILIDADE

 

     Quando estamos em época de bienais emergem os comentários sobre a inteligibilidade das obras expostas. Normalmente a reação do público é negativa. Não gostam e não entendem. Por parte de quem organiza ou atua nestes eventos, o argumento recorrente é o de que o grande público ainda não está preparado.

 

     Será que a maioria das pessoas não entende e não aprecia a arte contemporânea por falta de instrução? Primeiro, devemos fazer uma distinção entre instrução e sensibilidade. Há gente instruída e até intelectuais que não têm a mínima sensibilidade para apreciar até mesmo uma obra prima. Então, o problema não está na cultura e sim no dom natural de sentir a arte.  Este dom não pertence a todos, infelizmente. Há os que passam pela vida sem notar um bonito dia, um detalhe sublime da natureza, uma poesia, uma música ou um belo quadro. Uma triste deficiência da alma.

 

     Então, quem não gostou ou não se interessou por um monte de palha com um furinho, denominado “Esconderijo”, visto numa destas bienais, mesmo depois de ouvir ou ler o recado do artista, é um deficiente sensitivo ou não está preparado para isso? Nem uma coisa nem outra: a arte contemporânea não existe para ser sentida ou contemplada. O que deveria ser admitido e esclarecido é que as bienais mostram outra arte, ou outra coisa, para os que não a aceitam como arte. A cisão dos contemporâneos com a arte tradicional foi tão grande que deixaram de lado o prazer de desenhar e de pintar. O que fazem são lucubrações sociológicas, filosóficas ou políticas em forma de “metáforas” com objetos visuais.

 

     Portanto, quem não entende a arte contemporânea, não deve se sentir um desinformado. Afinal, quanto tempo se passou desde os primeiros dadaístas e desde quando Duchamp expôs um mictório? E até hoje, apesar de tanta explicação, de tanta mídia e de tanto dinheiro gasto com cada bienal o grande público ainda não entende e não gosta? Enquanto alguns se arvoram nesta discussão outros continuam praticando, aprimorando e aprendendo a pintura para que muitos outros, dotados de sensibilidade, continuem apreciando e sentindo. Coisas diferentes devem ser colocadas em contextos diferentes. 

 

                                                                                                                                   Erico Santos

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