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DORES E CORES DA COLÔMBIA*

 

    Ninguém, normal, sente prazer em ver reportagens retratando massacres, sangue e sofrimento. Mas, quando estas imagens são decodificadas pelo gênio de um artista, paradoxalmente elas se tornam belas. Muitos artistas, como Goya e Picasso,  registraram em tela o sofrimento humano causado pela guerra e a injustiça.

 

     Picasso evitou as cores em “Guernica”, para enaltecer o trágico, mas a arte, quando exercida na sua plenitude, serve para depor, acusar, testemunhar e, ainda, maravilhar. A tragédia e a dor, pura e simplesmente, devem ficar nas páginas dos jornais. Na pintura, na literatura ou no cinema, nada impede que a denúncia seja apresentada numa embalagem poética e agradável aos olhos.

 

     Fernando Botero, na sua itinerante exposição “Dores da Colômbia” que em 2012 tive o grande prazer de contemplar em Porto Alegre no Centro Cultural Erico Veríssimo,  impactou o espectador com cenas fortes de uma Colômbia assolada por uma história de violência e morte. Entretanto, não esperava o espectador ver quadros feios e desprovidos de cor. Eram deslumbrantes como a página de um poema ou a tela congelada de um belo filme. Botero é destes artistas contemporâneos que sabem transformar o cotidiano em belas formas e cores, mesmo a tragédia. Porque ele tem a técnica do desenho e da pintura.  Seu estilo é inconfundível. Não há espaços vazios e inúteis na sua composição, tornando a leitura do seu tema fácil e objetiva. Sua arte é moderna sem prescindir do belo. A tinta preta é quase inexistente em sua paleta, à maneira dos mestres do renascimento que tanto estudou e copiou. Suas sombras são cores, como faziam os impressionistas. Pinta a dor sem apelar para as garatujas negras e tristes do expressionismo pós-guerra.

 

     Botero não é daqueles artistas enfadonhos e sem cor, que fazem da sua obra um paranóico instrumento de denúnca: “Sou contra a arte como arma de combate. Mas, em vista do drama que atinge a Colômbia, senti a obrigação de deixar um registro sobre um momento irracional da nossa história.” Referia-se às guerras do narcotráfico e às guerrilhas entre grupos terroristas e paramilitares e o fez com sua arte bela e original de sempre que o consagrou internacionalmente. Diego Rivera, no norte e Botero, no sul, introduziram a América Latina no camarote de honra do cenário artístico mundial.

 

     Se a Colômbia tem a triste escuridão da tragédia e da dor, por outro lado, tem a cor e a beleza da obra eterna de Fernando Botero.

 

                                       Erico Santos

                                     Artista plástico

 

*Texto publicado no Jornal Zero Hora de 04/02/2012

 

 

 

       

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