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VIVA A ARTE CONTEMPORÂNEA

 

     Presenciei, há alguns anos,  na Academia de Belas Artes de Brera, em Milão,  um movimento raro entre jovens militantes da arte: uma moção contra o vale tudo da arte contemporânea. Normalmente, estes movimentos vêm dos ditos conservadores ou daqueles que fazem uma arte não identificada com a contemporânea. Por todas as dependências da Academia, viam-se cartazes, panfletos, faixas e até uma “instalação” bem no centro do pátio, onde se via um monte de cacarecos jogados em torno de um monumento, trouxas feitas com sacos de lixo atadas com barbantes, cubos mal acabados feitos de papelão e borrados de tinta de várias cores, um chapéu de formatura  e até uma grande caixa preta, simbolizando um caixão de defunto cheio de trapos, papelada e bugigangas, tudo em meio a cartazes com desenhos de pincéis sendo enforcados, denunciando a morte da arte.  Tudo nos moldes e com a “cara” do que se vê normalmente pelos salões das bienais no mundo a fora. Colado ao monumento, lia-se um grande cartaz:  “Biennale, la falsa rivoluzione dell’arte contemporanea”.

 

     Logo no início eu custei a acreditar que se tratava de um protesto contra a arte contemporânea, feita por alunos de arte, já que é esta a arte que se ensina nas faculdades ou, pelo menos, a que é mais levada a sério.  Fiquei positivamente impressionado porque sempre disse e escrevi que só no dia em que a denúncia surgisse diretamente da Europa, o resto do mundo começaria a se dar conta dos mandos e desmandos da contemporaneidade artística.  Melhor impressionado eu fiquei, por partir de estudantes, cansados de não desenhar, não pintar e não esculpir.

 

     Não sou um crítico contumaz da arte contemporânea só porque não é o meu ramo. Como artista, sempre defendi a boa arte, seja ela qual for. O que entendo que deve ser criticado é a falta de critério para se poder avaliar se uma arte é boa ou má. Na arte contemporânea, por não haver um critério, qualquer coisa que façam, é acatado por todos – um silêncio constrangedor ou um alarde comprometido – e segue o barco rumo ao nada, onde seus timoneiros se limitam a fazer qualquer coisa, desde que tenha aquele manjado aspecto.

 

     Felizmente sempre há raras ilhas neste oceano vazio e entre elas cito um artista contemporâneo – contemporaneíssimo – que se chama Vik Muniz, não só pela popular notoriedade que lhe deu a abertura da novela “Passione” da rede Globo,  mas porque é um verdadeiro artista. Jovem ainda, sabe tudo de desenho, perspectiva, planos, cores, proporções,  além de ter domínio total do fenômeno do pontilhismo que tanto encantou os pós impressionistas. É um ícone brasileiro na tão criticada arte contemporânea, com sucesso internacional a nos orgulhar. Aí está alguém fazendo uma arte nova, impactante, mas com o critério do conhecimento e virtuosidade técnicos. Vik Muniz é capaz de desenhar e pintar com qualquer coisa: chocolate, terra, sucata, lixo... mas desenha e pinta ou esculpe e monta, seja lá o que for.

 

     Muitos pensam que a arte contemporânea está com os dias contados. Mas com denúncias como esta da Academia de Brera e o inconformismo cada vez maior de gente importante do cenário artístico, abre espaço para artistas geniais que reagem, mostrando que, contemporânea ou não, uma atividade humana só poderá ser chamada de arte se houver o critério da técnica e da criatividade. Assim, a arte contemporânea, perdoem-me o paradoxo,  viverá para sempre.

 

                                                                            Erico Santos

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