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O ENCONTRO COM DELACROIX

 

     O ar frio parecia ir direto na minha garganta.  Já estava cansado de caminhar. Não sabia para onde eu estava indo. Um passeio sem destino, como gosto de fazer, descobrindo as coisas sozinho. Não gosto de emoções pré-agendadas. De tempos em tempos, consultava a minha bússola para não perder a direção do hotel. Pisava apressado aquelas pedras bem assentadas e polidas pelo tempo, distraindo-me com a agitação da boulevard  Saint Germain. Talvez, se eu dobrar em alguma esquina, encontre alguma galeria de arte, pensava. Eu não podia perder a referência da margem do Sena, então dobrei na primeira esquina à direita. Era uma ruazinha estreita, repleta de galerias de arte. A minha intuição deu certo. Olhei algumas vitrines e pude verificar que a arte de mercado parisiense, moderna e original, ainda se conduz dentro da linha figurativa, com poucas exceções.     

 

    Ter pego a rue de Seine já tinha valido a pena quando, de repente, avisto uma placa em forma de seta: “Musée Eugène Delacroix – 6 rue de Furstenberg”. Quem tem pernas e olhos não precisa de guia turístico. Dobrei à esquerda. Fui seguindo o sentido da rua, que fazia um ângulo bem fechado. Perdi a referência por alguns instantes até dobrar à direita, numa ruazinha bem estreita e curta. Avistei outra placa indicando o museu. Passei por uma simpática pracinha, dei uns passos adiante, outros à direita, uma passagem em forma de túnel que dava para um largo quadrado, assentado com antigos paralelepípedos... Um edifício com janelas altas, bem ao estilo século XIX. Eu estava em frente ao local  onde Delacroix viveu e trabalhou nos seus últimos anos de vida! Pisei aquelas pedras, subi uma antiga escadaria que tantas vezes ele subira. Pude ver dezenas de esboços a lápis, aquarelas, óleos em pequenas dimensões, a mobília e pertences pessoais. Me detive muito naqueles esboços aquarelados e pude ver o domínio ágil do seu traço. Para descobrir a pintura tem que dominar muito o desenho. Vi as primorosas litografias que fez para Hamlet. Luz e movimento em gravuras que só vi em Goya.

 

     Delacroix disse que só descobriu a pintura quando já não tinha mais dentes nem alento, mas já tinha deixado para a posteridade centenas de telas e murais que inauguraram o romantismo na pintura e referenciaram uma nova maneira de pintar, a partir de experiências diretas do mundo real, onde a composição é marcada pela cor e movimento. Quando ele disse que “nem sempre a pintura precisa de um tema”, estava abrindo caminho para todos os outros, até hoje. Estudou a cor cientificamente. Foi muitas vezes acusado de exagerar na cor, numa época em que ainda não entendiam  que tudo é colorido. Até a sombra.

 

    Conheci, por acaso,  as dependências do apartamento onde viveu aquele artista incansável que dizia que precisava de 400 anos para realizar tudo o que tinha em mente. Estive no quarto onde, ao lado de Jenny, cerrou definitivamente aqueles olhos que sabiam ver tão bem. Desci a escadaria, voltei pelo caminho em forma de túnel e continuei o meu passeio sem rumo.

 

     Ainda estava com o pensamento naqueles esboços do Delacroix quando passei por um longo paredão de pedra encardida pelo tempo. Olhei para o alto e vi que era uma igreja muito grande. Tinha uma escada que subia para uma entrada lateral, obstruída. Parecia abandonada. Papelões na cerca de ferro. Eram as “paredes” do abrigo de um mendigo. Há mendigos em Paris!  Contornei e busquei a entrada da frente. Respirei aliviado ao ver que a imensa torre norte, de longas colunas jônicas e coríntias, estava sendo restaurada. Lá, estas coisas não ficam abandonadas. Entrei, e só depois de entrar, me dei conta que estava dentro da Igreja de Saint-Sulpice.

 

     Lá estava  o obelisco do “gnomon” astronômico que, através da vidraça, recebe a imagem do sol no momento do solstício de inverno e a linha de latão rasgando o chão da igreja,  popularizados por Dan Brown no “Código da Vinci”. Olhei para aquele interior escuro, para aquele altar circular onde “Maria e seu Filho”, de Pigalle, pairam sobre nuvens de pedra que se volatizam e voltei a lembrar Delacroix. Ali, entre aquelas paredes silenciosas que gritam história,    seus contemporâneos do romantismo, Victor Hugo e Baudelaire, tiveram momentos muito especiais: o primeiro casou e o segundo foi batizado.

 

     Quando ia saindo da igreja, numa das capelas, no lado esquerdo, imediatamente me chamou a atenção dois imensos painéis a óleo que se destacam da escuridão das outras pinturas. Delacroix novamente! “São Miguel Combatendo o Dragão” e “Combate de Jacob com o Anjo”, bem às cores, ao movimento e ao temperamento dele. Por mostrarem cenas agressivas, beligerantes, foram alvo de protestos na época por não condizerem com o ambiente religioso. Foram os dois últimos grandes painéis do artista que trabalhou, já doente e debilitado pela  faringite tuberculosa que o matou em 1863 aos 65 anos.

 

     Uma caminhada, sem saber para onde,  por lugares em que nunca havia pisado, terminaram por me recompensar com este emocionante encontro, pois já havia dito o crítico de arte brasileiro Jacob Klintowitz que a minha modesta e esforçada pintura tem afinidade com a trilha iniciada por Delacroix.

 

                                                            Erico Santos

 

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