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Minha mãe sempre falava que um dos irmãos da sua mãe era um reconhecido pintor.  Lembrava da imagem de um quadro nas paredes da casa da tia Luísa. Falava que o quadro era um menino com um galo nos braços. Ouvia falar que o modelo era um menino pobre que passava na rua, em frente ao seu atelier, e o tio Polycarpo ofereceu uns trocados para que ele posasse, ali mesmo, no quintal da sua residência. Uma pintura feita in loco, com a precisão técnica como se fosse executada no atelier. Nunca havia visto o quadro, mas ficou a imagem, clara em minha memória.


Passados os anos e já envolvido de corpo e alma com a pintura, fui pesquisar sobre o artista Polycarpo di Primio. Afinal, ter um antepassado pintor era algo que sempre me tocava. Achei no livro “Artes Plásticas no Rio Grande do Sul”, de Athos Damasceno, várias páginas sobre o tio Polycarpo e me enchi de orgulho ao ler que ele era um pintor de méritos dignos de realce, com “uma produção, pouco extensa mas variada e claramente reveladora de dotes incomuns”. No Rio de Janeiro, adquiriu a admiração e amizade dos irmãos Bernadelli. A sua “Vila di Primio”, onde residia na Av. Cristóvão Colombo em Porto Alegre, era um centro de convívio artístico. Nunca teve professor. Nunca frequentou cursos de arte. Sua atividade de comerciante lhe absorvia muito e nunca pode se dedicar e viver somente da arte, o que na época, era ainda mais difícil que nos dias de hoje. Não achei neste livro e em nenhum lugar, uma foto do quadro, mas eu tinha na cabeça uma imagem muito clara daquela pintura, a composição, os tons, tudo... Minha mãe contava também que o tio Polycarpo nunca se recuperara do prematuro falecimento de sua sobrinha a qual queria como filha e que contraíra uma estranha doença.   Ele faleceu em Porto Alegre em 17 de junho de 1933,  aos 60 anos de idade.

 
Soube, pelo livro do Damasceno, que o quadro havia sido doado para a Pinacoteca do Instituto de Artes da UFRGS. Quando eu vim residir em Porto Alegre, na década de 80, uma das primeiras coisas que fiz foi ir até o Instituto de Artes para ver aquela pintura. Fiquei frustrado porque ninguém lá sabia informar onde ela estava ou se, realmente,  fazia parte do acervo.

 
Num dia destes, ao folhar um jornal de Porto Alegre, me deparo com uma imagem muito conhecida e que instantaneamente me reportou àquele quadro: era o “Menino e a Ave”, de Polycarpo di Primio. Tal como eu sempre pensei que era.  Aquela foto me fez ler o texto que tratava da mostra “Total Presença – Pintura”, na Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, do Instituto de Artes da UFRGS. Uma mostra objetivando apresentar um conjunto de obras do valioso acervo daquela pinacoteca. Imediatamente fui lá e pude,  finalmente, ver pela primeira vez aquele quadro tão especial para mim, até então pintado somente na minha imaginação.
 

                                                                                                        Erico Santos

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